Tema 3 ABNT NBR 20250:2026
Energia costuma ser tratada como um tema operacional. Um custo relevante, monitorado com atenção, mas ainda assim visto como uma variável de eficiência, não como um indicador estratégico.
Essa leitura começa a ficar ultrapassada.
À medida que a agenda ESG evolui e o Selo Verde Brasil ganha espaço, o uso de energia deixa de ser apenas uma questão de consumo e passa a revelar algo mais profundo: o nível de maturidade da operação.
Durante muito tempo, a gestão de energia esteve concentrada em reduzir custos e melhorar eficiência. Medir consumo, negociar contratos e buscar ganhos operacionais eram as principais preocupações. Hoje, esse cenário se amplia.
O uso de energia passa a ser analisado dentro de uma lógica de sustentabilidade, considerando não apenas quanto se consome, mas como se consome, de onde vem essa energia e qual é o impacto associado ao longo do ciclo de vida do produto ou serviço.
A seção 5.3 da ABNT NBR 20250 trata do uso da energia e estabelece diretrizes que vão além do simples monitoramento do consumo. A norma orienta a identificação das fontes de energia, o acompanhamento do consumo, a busca por eficiência energética e a adoção de fontes renováveis. Também amplia o olhar para a cadeia de valor, incluindo matérias-primas, insumos, distribuição e parceiros.
Como destaca a Agência Internacional de Energia, a transição energética deixou de ser apenas uma agenda ambiental e passou a ser um fator de competitividade, risco e reposicionamento industrial.
Mais uma vez, o ponto central não é apenas medir. É entender e evoluir.
O erro mais comum é tratar energia apenas como custo. Essa abordagem limita a capacidade de enxergar riscos importantes. Uma operação pode ser eficiente do ponto de vista financeiro e, ainda assim, depender de fontes intensivas em carbono, apresentar baixa eficiência energética estrutural, não ter estratégia de transição energética ou desconhecer impactos indiretos na cadeia.
Nesse cenário, o problema não aparece no custo imediato, mas aparece no médio prazo, especialmente em mercados mais exigentes.
A Organização das Nações Unidas reforça que energia limpa e acessível é um vetor central para desenvolvimento sustentável, inovação e redução de desigualdades. Isso significa que energia não é apenas um insumo técnico: ela é parte da lógica de competitividade, reputação e responsabilidade corporativa.
Na indústria, é comum encontrar plantas com bom controle de consumo, mas sem visibilidade sobre a origem da energia ou sua intensidade por processo. Na mineração, operações intensivas em energia muitas vezes não conectam esse consumo com emissões e risco climático. Na logística, o consumo energético indireto, especialmente em transporte, ainda é pouco integrado à estratégia ESG.
Empresas mais maduras começam a tratar energia como variável estratégica, conectando consumo, eficiência, fonte e impacto. Também avançam na diversificação da matriz energética, na busca por fontes renováveis e na integração com decisões operacionais e de investimento.
Na lógica da ABNT PR 2030, o uso de energia atravessa as três dimensões do ESG. No ambiental, está diretamente ligado a emissões e uso de recursos naturais. No social, pode impactar acesso à energia e desenvolvimento regional. Na governança, reflete a capacidade de planejar, monitorar e tomar decisões baseadas em dados consistentes.
A conexão com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável também é direta, especialmente com o ODS 7, Energia Limpa e Acessível, o ODS 13, Ação Contra a Mudança Global do Clima, e o ODS 12, Consumo e Produção Responsáveis.
No fim, o uso de energia deixou de ser apenas um indicador de eficiência operacional. Ele passou a ser um indicador de maturidade.
Empresas que apenas controlam consumo continuam reagindo ao custo. Empresas que entendem a lógica energética da operação conseguem antecipar riscos, reduzir impacto e construir vantagem competitiva.
A questão já não é quanto sua empresa consome. A questão é se ela entende como consome, de onde vem essa energia e como isso evolui ao longo do tempo.
